Globalizaram o jeitinho

Cenário: aeroporto de Paris, área de embarque. Pessoas de todas as nacionalidades vêem e vão todos os dias para este destino turístico e de negócios. Alguns preferem ou precisam viajar em grandes grupos. Foi um destes grupos que protagonizou uma cena bizarra na fila de “tax refund”, que é o reembolso que você pode requerer para compras acima de um determinado valor. Eram duas filas, uma para carimbar os formulários e outra para efetivamente receber o valor. O que o grupo de chineses fez? Mandou um deles guardar lugar na fila do dinheiro, enquanto os outros 50 ficavam na primeira fila. Na frente deles na primeira fila estavam alguns brasileiros e outras pessoas que calmamente esperavam sua vez. Terminada a primeira fase cada um se dirigia para a segunda fila e lá estava o chinês no segundo ou terceiro lugar da fila do dinheiro. De repente, os chineses começaram a chegar na segunda fila. Logicamente que todos eles se aglomeraram junto com o único que já estava lá. Eles eram muitos. A fila se desfigurou. Imaginem 50 pessoas passando à sua frente. Aí começou a gritaria. Uma das atendentes veio para a fila e começou a gritar em francês com os chineses para que fossem para o final da fila. As pessoas que foram passadas para trás pediam em voz alta que a polícia fosse chamada. Os próprios chineses começaram a brigar entre si, pois cada vez iam chegando mais e mais do grupo deles, todos querendo ocupar o mesmo lugar na frente da fila. Os gritos assustavam a quem passava. Quem estava na fila estava perdido. A maioria estava revoltado em presenciar aquela falta de cidadania, desrespeito às regras sociais e ao país que acabavam de visitar. Enquanto isto, ninguém era atendido. A polícia chegou, mas ficou ali na frente dos guichês plantada. Alguns concluíram que não valia a pena e abandonaram a fila. A gritaria continuou. Provavelmente, depois de muita confusão os chineses conseguiram ser atendidos. Não fiquei para ver. Imaginar que um país onde vivem bilhões de pessoas como a China, que desde há alguns anos vêm crescendo constantemente, sua população conquistando maior poder aquisitivo, bens e posição social, é natural entender que queiram consumir mais e mais, inclusive no turismo. Acostumados a lutar pela sobrevivência, como todos os outros povos, inclusive os brasileiros, podemos imaginar o que representa para eles expandir os horizontes com a cultura ocidental. Por outro lado, talvez o choque de culturas seja muito grande. Há regras de convívio universais, mas que devem ser ensinadas, pois não são inatas. Presenciar a cena com o grupo de chineses, que mostraram total desprezo às outras pessoas ali presentes, seja talvez uma evidência de que o mundo está chegando a um limite, ao choque entre o poder do dinheiro versus o respeito ao próximo, ao limite entre o consumo desenfreado e a vida em comunidade, a comunidade global. Imaginar que quem entra para consumir em uma loja da Louis Vitton e dali vai para o aeroporto brigar pela migalha do imposto que será devolvido é paradoxal, ainda mais quando para isto se passa por cima literalmente do outro que está ao seu lado. Vive la France e os brasileiros que inventaram o jeitinho, enquanto outros parecem deturpar o seu uso.

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Arquivado em consumo, Histórias, Notícias

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