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Marketing danoso e a matéria de hoje no caderno PME do Estadão “Urgência para transformar a educação”

Há um bom tempo não escrevo no blog. Não por que não quis, mas tive que concentrar todas as forças nos últimos tempos, logicamente que nas horas extras ao trabalho, para finalizar o mestrado, ou seja, entregar os volumes e defender a dissertação.

Coincidentemente ao tema do meu trabalho leio hoje a matéria abaixo no Estadão:

http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,urgencia-para-transformar-a-educacao-imp-,1569540

O Estadão Pequenas e Médias Empresas premiou a plataforma Veduca por ser um negócio inovador.

Nos últimos 3 anos, as plataformas de cursos gratuitos tiveram um crescimento vertiginoso, contabilizando cerca de 10 milhões de alunos inscritos (Shah, 2014). Isto é um dado da minha pesquisa intitulada “Recursos Educacionais Abertos e Direitos Autorais em Ambientes Virtuais de Aprendizagem: conceitos e perspectivas”.

Vamos aos fatos da matéria. Um dos fundadores disse que viu lá fora um movimento de recursos educacionais livres. Este conceito não existe. O nome correto que foi cunhado pela Unesco em 2002 é Recursos Educacionais Abertos ou OER (Open Educational Resources). O conceito é que para um recurso ser considerado aberto ele precisa necessariamente ter uma licença aberta atrelada ou um creative commons, que pressupõe a reutilização do conteúdo.

Acontece que estas plataformas, como o Veduca, são de cursos “gratuitos”, mas com contrapartidas pesadas aos alunos que se inscrevem. Os alunos têm que se cadastrar e tudo que diz respeito à interação no curso, participação em Forum, chat e até o comportamento e desempenho do aluno no curso é monitorado pela plataforma que toma posse destes dados e com isso forma o “big data” que interessa tanto aos investidores. Está tudo lá nos termos de uso e política do site. O aluno abre mão de direitos inalienáveis. A matéria fala de “tráfego” de 7 milhões. Isto não quer dizer muita coisa. Quantos alunos se inscreveram e realmente foram até o fim? A média mundial é de 4%.

Agora o mais importante. Advogam o “ensino de qualidade”. Qual seria esta qualidade? Republicar as palestras gratuitas dos Ted Talks que estão disponíveis no Youtube, acrescentar legendas e chamar isto de curso? Um curso pressupõe um projeto pedagógico, um currículo, acompanhamento, interação com o aluno e avaliação.

Vamos a um exemplo prático que faz parte também do meu trabalho. Há um curso hospedado no Veduca que se chama “Bioenergética” da Universidade de Brasília. Ele é composto de um conjunto de “video-aulas”. Coloquei entre parenteses porque por vezes não é possível ver o professor. Ele some da tela ou fica andando de um lado a outro. Em nenhum momento ele olha para o aluno a distância ou se dirige a ele. O curso é simplesmente uma câmera de segurança que ficou ligada filmando um curso presencial. Isto com certeza não pode ser chamado de curso.

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Legenda: instante de uma aula do curso de Bionergética da Unb no site Veduca. O professor some da tela em diversos momentos.

É louvável a intenção de democratizar a educação, mas o aluno precisa estar ciente do que abre mão para participar e do que efetivamente percebe e recebe como contrapartida. Sim à educação, não ao marketing danoso!

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Arquivado em consumo, filhos, internet, Notícias

De celular em punho

Há algumas profissões que envolvem a dedicação de um profissional a uma pessoa por um determinado período de tempo do dia. Por exemplo, o personal trainer, a babá e tantos outros que fazem das horas dedicadas aos seus clientes sua profissão e consequentemente seus ganhos. Espera-se destes profissionais que dediquem as tais horas sem distrações. Logicamente, se surgir uma necessidade premente, alguma surpresa, um telefonema de emergência, é possível com um pedido de desculpas e licença atender a tal interrupção, retornando à dedicar-se ao cliente o quanto antes. Não é o que tem acontecido na maioria dos casos. Observe ao seu redor. Vejo, por exemplo, os personal trainers mal olhando para o aluno que executa o exercício, mas ao contrário respondendo a um torpedo, falando ao telefone, quem sabe checando os e-mails ou o “face”. Outro dia vi uma babá com uma criança que com certeza já anda, deixando-a no carrinho em um parque enquanto ela falava ao celular. Para fingir que dava atenção à criança ela repetia o que a criança balbuciava “aaaa” e ela “aaaa”. Fiquei imaginando o quanto esta criança estava sendo estimulada pela fala da babá. Se fosse uma profissional consciente estaria ela conversando, contando histórias e outros recursos que os pais muitas vezes utilizam para entreter os pequenos e, ao mesmo tempo, deixar registrado na memória deles as palavras novas, que com certeza em pouco tempo estariam falando.  Alguns clientes são indefesos como a criança da história que contei, mas muitos outros poderiam alertar tais profissionais que concentrar-se no que se propõe a fazer é imprescindível para a qualidade do trabalho que ele realiza e para que ele continue a ter clientes a médio prazo. Por mais que os smartphones têm revolucionado a conectividade entre as pessoas e e entre estas e o mundo, as relações ainda precisam do olho no olho, do sentir, dos poucos momentos de contato. Experimente!

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