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Diferenças culturais, mas nem tanto…curiosidades sobre a Coréia do Sul

Vivenciar diferentes culturas é sempre muito enriquecedor e promove reflexões sobre a nossa própria cultura.

Lendo uma matéria hoje no Korea Joongang Daily me fez refletir sobre o quão pequeno tornou-se o nosso mundo.

http://koreajoongangdaily.joins.com/news/article/article.aspx?aid=2996624

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Aprendi aqui que não era hábito dos coreanos tomar café há 20 anos. Hoje alastraram-se as redes multinacionais: Starbuck’s coffee e outras, além de várias redes de fast food, como Burger King, Dunkin Donut’s, Popcorn de Chicago etc. Curiosamente os coreanos ainda são na maioria bem magros e as mulheres que não tentem comprar roupa aqui, pois os manequins são minúsculos.

A par estas curiosidades, o que chamou atenção na matéria é a casa de café reportada na qual os escritores são muito bem-vindos. Passam horas lá escrevendo. Nas estantes há livros em várias línguas, disponíveis para quem quiser. Você não é obrigado a consumir. Há um público jovem também indo aos cafés para buscar inspiração e escrever.

Quando falamos de um país conhecido pelo avanço tecnológico tal relato é acalentador no sentido de que o processo criativo independe da tecnologia. Tecnologia é somente o meio utilizado hoje para dar vazão aos escritos, mas o processo em si ainda não foi automatizado. Criar é dedicar-se, é buscar o ambiente que te inspira e isso vale para qualquer lugar do mundo.

Annyeonghi-gaseyo! (Tchau em coreano)

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A criatividade como desafio na conectividade do mundo pós-moderno

As massas impelem, as empresas investem alto em campanhas de marketing, as “tribos” preconizam, a hierarquia empresarial impõe, o consumo desenfreado estimula: permaneçam conectados, ligados às telas, respondam às mensagens, twittes, e-mails, discussões em grupo etc. em tempo real, em minutos, chega a ser uma etiqueta da rede.

Será possível criar neste ambiente? Pensar, organizar pensamentos, ideias em um mundo altamente conectado em que o indivíduo vê-se quase obrigado a ser interrompido ou interromper propositadamente qualquer tarefa para provar ao mundo que continua ali, a postos para interagir a qualquer demanda?

Powers em o “Blackberry de Hamlet” citando estudos afirma que cada vez que abandonamos uma tarefa mental para responder a uma interrupção leva-se de 10 a 20 vezes o tempo da interrupção para recuperar a atenção à tarefa inicial. Sendo que muitos de nós, quando interrompidos, vamos a outras tarefas, alongando ainda mais, quando não procrastinando a tarefa inicial que desenvolvia-se em nossa mente.

Recentemente estive na Feira do Livro de Londres e, invariavelmente, ao começar qualquer reunião, que são agendadas meses antes e ocorrem a cada meia hora, em diferentes estandes, em um ritmo frenético, a saudação inicial, aquela feita para criar um diálogo inicial com uma pessoa nova ou há muitos meses sendo contatada apenas por e-mail, era “busy fair so far?”. Estar ocupado o identifica com o outro, como um carimbo em sua identidade. Algo contra o qual não há o que fazer, como uma doença crônica, simplesmente acostumamos, adaptamos, usamos remédios paliativos, como de vez em quando tirar uma semana de férias e, apesar de cuidadosamente, deixar uma resposta automática em sua caixa de e-mails quanto à ausência, acaba checando-os, respondendo alguns, como que dizendo ao mundo: sou necessário, não me esqueçam.

Coutinho em recente coluna publicada na Folha de SP “Redes e aquários” conclui assustoradamente, comentando um ensaio de Stephen Marche: a nossa constante disponibilidade para os outros é apenas uma manifestação mais profunda do nosso insuportável narcisismo. E o narcisismo, como sempre, nasce de uma insegurança que procuramos preencher com o culto ao ego doentio.

Relacionar o narcisismo de Marche com a imaturidade do indivíduo incapaz de ficar sozinho consigo mesmo, de Powers, quando constata ao perder o celular no meio do mar, quanta maturidade é necessária para lidar com a solidão, têm-se os ingredientes propícios aos diversos gadgets, telas e afins para que o sujeito permaneça conectado a tudo e a todos, mesmo sabendo ao fundo, que nada mais são que conexões superficiais e voláteis, quando não sustentadas por uma relação no mundo físico, real.

Zygmunt Bauman em entrevista proferida ao “Fronteiras do Pensamento” compara a forma em que as amizades são desfeitas, entre o tempo das cartas escritas à mão ao mundo do Facebook. Antes, para desfazer uma amizade era preciso estar frente a frente ao outro, olhar nos olhos, vencer os medos e falar assertivamente o que o levava a tomar aquela decisão de rompimento. No mundo líquido e pós-moderno, amizades são feitas e desfeitas a um simples click. Não quer mais falar com fulano? Bloqueie o perfil dele, não responda às mensagens e não atenda ao celular. Quantos relacionamentos, namoros etc têm-se utilizado deste subterfúgio para terminarem.

Powers exemplifica e cada um de nós deve ter inúmeras situações semelhantes em que, ao olharmos em volta, seja no metrô, no farol, nas mesas dos restaurantes, até mesmo no convívio com a família em casa, a maioria está com um smartphone, celular, ipod etc., navegando. A atenção fica, sem dúvida, dividida e até mesmo as conexões físicas e mentais deterioram-se. O indivíduo perde a oportunidade de estar ali, naquele momento, simplesmente praticando o “flâneur” ou interagindo no mundo real com pessoas de carne e osso.

O processo criativo sofre, a alma adoece, o indivíduo desespera-se diante da falta de controle sobre o que realmente é importante, o que é somente tempo consumido com tarefas sem importância alguma, que serão esquecidas, “deletadas”, em segundos.

Hoje pressupõe-se que o homem tem a liberdade, liberdade de escolher caminhos, carreira, projetos, mas para muitos tal liberdade é desesperadora como explica Bauman em “Modernidade Líquida”. As pessoas parecem querer e precisar serem guiadas, atender a normas e regulamentos, sem os quais sentem-se perdidas e inseguras diante das escolhas que a liberdade proporciona. Opta-se então por seguir as massas.

Individuos que preferem seguir as normas para se proteger de tantas opções muitas vezes não deixam de exercer o pensamento crítico e a expressão firme de tais pensamentos. Entretanto, como afirma Bauman, nossa crítica é, por assim dizer, “desdentada”, incapaz de afetar a agenda estabelecida por nossas escolhas.

Incrivelmente os dilemas da sociedade atual não eram diferentes nos tempos antigos. Powers afirma, citando Platão, que até mesmo na Grécia antiga as pessoas se preocupavam com o que a tecnologia mais recente fazia com a cabeça delas e encontravam formas de escapar da multidão.

Bauman pontua, sobre o mesmo tema que a sociedade do século XXI não é menos moderna que a que entrou no século XX: o máximo que se pode dizer é que ela é moderna de um modo diferente.

E como ser criativo, gerar novas ideias, construir algo novo e original neste mundo pós-moderno de alta conectividade? Cada indivíduo tem que encontrar seu próprio ponto de equilíbrio, criar o ambiente que estimule sua criatividade com o devido isolamento, estabelecendo limites às interrupções passivas ou ativas. O que funciona para um pode não ser produtivo para outro, mas exemplos sempre são inspiradores e estimulantes.

É importante que as pessoas, cientes e conscientes das consequências da abordagem maximalista (Powers) encontrem caminhos sustentáveis para a busca do equilíbrio e possam com seu exemplo inspirar as novas gerações que já nascem conectadas e, por isso, muitas vezes, não sabem o que é viver e se relacionar sem um gadget ou uma tela para “tocar”.

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