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O lápis de ponta e a máquina de escrever e como mudam as formas criativas

Na coluna do Ruy Castro há dois dias na Folha de SP:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/111590-o-lapis-de-ponta-perfeita.shtml

ele falou como ainda hoje se pode viver de apontar os lápis grafite. Várias profissões ainda o utilizam e consideram importante tê-los apontados. Contou a história de um profissional apontador americano. Deu como exemplo de quem os utiliza por aqui o Helio de Almeida, diretor de arte. Sorri ao ler, pois várias vezes estive com o Helio e vi aquelas mãos criativas desenhando linhas no papel com lápis muito bem apontados, dos mais variados calibres.

Em tempos de gadgets que prometem substituir a prancheta como não lembrar também dos textos que digitamos nestes aparelhos, PC, laptop, tablet, smartphone etc. Não faz muito tempo, mas foi no século passado, as máquinas de escrever tinham a utilidade de colocar tinta no papel, a partir das teclas, que não são muito diferentes dos atuais keyboards. No meu primeiro emprego antes da faculdade ainda tiver que passar por um teste de datilografia, já naquelas modernas máquinas onde era possível corrigir os erros e até mudar de cor. Talvez por isso ainda digite rápido e com mais de um dedo.

Para quem gosta de ver estas contradições em ação, passado, presente e futuro das letras recomendo o filme “The words” ou “As palavras” com Bradley Cooper, que passou no cinema ano passado. Veja o trailer:

Como ter certeza que um manuscrito antigo, datilografado, ainda não havia sido publicado em formato de livro? Ainda não havia e-mail, pen drive, computador pessoal, mas com certeza mimiógrafo e imprensa. Talvez o personagem tivesse dado um Google em trechos do livro e não tivesse encontrado nada. Aliás, como será que o que  fazemos hoje com o Google será visto pelas gerações futuras?

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E a reforma ortográfica foi adiada!!! “Somos um país sério?”, comentários ao artigo de Arnaldo Niskier na Folha de SP

Difícil entender como neste país os decretos do planalto mudam de uma hora para outra setores inteiros da economia, que antes adaptaram-se às próprias legislações vigentes. Desde 2008 quando a reforma ortográfica foi aprovada com data-limite para ser implementada, diversos setores adaptaram-se às mudanças, como as editoras de jornais, revistas, livros e outros. Hoje tornou-se corrente até mesmo escrever no dia a dia utilizando as novas regras. Como justificar este retrocesso? Como sempre o Brasil se curva à política de interesses.

Quando Arnaldo Niskier escreveu o artigo “Somos um país serio?” recentemente na Folha de SP, sendo ele membro da Academia Brasileira de Letras, entidade soberana na  definição da grafia do nosso português, podemos entender o ultraje imposto aos acadêmicos e aos profissionais com esta nova decisão política (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/88474-somos-um-pais-serio.shtml).

Mais uma vez adiamos nossa entrada no primeiro mundo, pois esta unificação da língua portuguesa significaria maiores chances de um assento permanente na ONU, tendo o português um status de língua única em diversos países.

Como o mercado reagirá? Será que as editoras voltarão atrás até uma nova decisão? Acredito que as mudanças já foram incorporadas no uso da língua corrente e não será um decreto despropositado que irá reverter a regra vigente.

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A criatividade como desafio na conectividade do mundo pós-moderno

As massas impelem, as empresas investem alto em campanhas de marketing, as “tribos” preconizam, a hierarquia empresarial impõe, o consumo desenfreado estimula: permaneçam conectados, ligados às telas, respondam às mensagens, twittes, e-mails, discussões em grupo etc. em tempo real, em minutos, chega a ser uma etiqueta da rede.

Será possível criar neste ambiente? Pensar, organizar pensamentos, ideias em um mundo altamente conectado em que o indivíduo vê-se quase obrigado a ser interrompido ou interromper propositadamente qualquer tarefa para provar ao mundo que continua ali, a postos para interagir a qualquer demanda?

Powers em o “Blackberry de Hamlet” citando estudos afirma que cada vez que abandonamos uma tarefa mental para responder a uma interrupção leva-se de 10 a 20 vezes o tempo da interrupção para recuperar a atenção à tarefa inicial. Sendo que muitos de nós, quando interrompidos, vamos a outras tarefas, alongando ainda mais, quando não procrastinando a tarefa inicial que desenvolvia-se em nossa mente.

Recentemente estive na Feira do Livro de Londres e, invariavelmente, ao começar qualquer reunião, que são agendadas meses antes e ocorrem a cada meia hora, em diferentes estandes, em um ritmo frenético, a saudação inicial, aquela feita para criar um diálogo inicial com uma pessoa nova ou há muitos meses sendo contatada apenas por e-mail, era “busy fair so far?”. Estar ocupado o identifica com o outro, como um carimbo em sua identidade. Algo contra o qual não há o que fazer, como uma doença crônica, simplesmente acostumamos, adaptamos, usamos remédios paliativos, como de vez em quando tirar uma semana de férias e, apesar de cuidadosamente, deixar uma resposta automática em sua caixa de e-mails quanto à ausência, acaba checando-os, respondendo alguns, como que dizendo ao mundo: sou necessário, não me esqueçam.

Coutinho em recente coluna publicada na Folha de SP “Redes e aquários” conclui assustoradamente, comentando um ensaio de Stephen Marche: a nossa constante disponibilidade para os outros é apenas uma manifestação mais profunda do nosso insuportável narcisismo. E o narcisismo, como sempre, nasce de uma insegurança que procuramos preencher com o culto ao ego doentio.

Relacionar o narcisismo de Marche com a imaturidade do indivíduo incapaz de ficar sozinho consigo mesmo, de Powers, quando constata ao perder o celular no meio do mar, quanta maturidade é necessária para lidar com a solidão, têm-se os ingredientes propícios aos diversos gadgets, telas e afins para que o sujeito permaneça conectado a tudo e a todos, mesmo sabendo ao fundo, que nada mais são que conexões superficiais e voláteis, quando não sustentadas por uma relação no mundo físico, real.

Zygmunt Bauman em entrevista proferida ao “Fronteiras do Pensamento” compara a forma em que as amizades são desfeitas, entre o tempo das cartas escritas à mão ao mundo do Facebook. Antes, para desfazer uma amizade era preciso estar frente a frente ao outro, olhar nos olhos, vencer os medos e falar assertivamente o que o levava a tomar aquela decisão de rompimento. No mundo líquido e pós-moderno, amizades são feitas e desfeitas a um simples click. Não quer mais falar com fulano? Bloqueie o perfil dele, não responda às mensagens e não atenda ao celular. Quantos relacionamentos, namoros etc têm-se utilizado deste subterfúgio para terminarem.

Powers exemplifica e cada um de nós deve ter inúmeras situações semelhantes em que, ao olharmos em volta, seja no metrô, no farol, nas mesas dos restaurantes, até mesmo no convívio com a família em casa, a maioria está com um smartphone, celular, ipod etc., navegando. A atenção fica, sem dúvida, dividida e até mesmo as conexões físicas e mentais deterioram-se. O indivíduo perde a oportunidade de estar ali, naquele momento, simplesmente praticando o “flâneur” ou interagindo no mundo real com pessoas de carne e osso.

O processo criativo sofre, a alma adoece, o indivíduo desespera-se diante da falta de controle sobre o que realmente é importante, o que é somente tempo consumido com tarefas sem importância alguma, que serão esquecidas, “deletadas”, em segundos.

Hoje pressupõe-se que o homem tem a liberdade, liberdade de escolher caminhos, carreira, projetos, mas para muitos tal liberdade é desesperadora como explica Bauman em “Modernidade Líquida”. As pessoas parecem querer e precisar serem guiadas, atender a normas e regulamentos, sem os quais sentem-se perdidas e inseguras diante das escolhas que a liberdade proporciona. Opta-se então por seguir as massas.

Individuos que preferem seguir as normas para se proteger de tantas opções muitas vezes não deixam de exercer o pensamento crítico e a expressão firme de tais pensamentos. Entretanto, como afirma Bauman, nossa crítica é, por assim dizer, “desdentada”, incapaz de afetar a agenda estabelecida por nossas escolhas.

Incrivelmente os dilemas da sociedade atual não eram diferentes nos tempos antigos. Powers afirma, citando Platão, que até mesmo na Grécia antiga as pessoas se preocupavam com o que a tecnologia mais recente fazia com a cabeça delas e encontravam formas de escapar da multidão.

Bauman pontua, sobre o mesmo tema que a sociedade do século XXI não é menos moderna que a que entrou no século XX: o máximo que se pode dizer é que ela é moderna de um modo diferente.

E como ser criativo, gerar novas ideias, construir algo novo e original neste mundo pós-moderno de alta conectividade? Cada indivíduo tem que encontrar seu próprio ponto de equilíbrio, criar o ambiente que estimule sua criatividade com o devido isolamento, estabelecendo limites às interrupções passivas ou ativas. O que funciona para um pode não ser produtivo para outro, mas exemplos sempre são inspiradores e estimulantes.

É importante que as pessoas, cientes e conscientes das consequências da abordagem maximalista (Powers) encontrem caminhos sustentáveis para a busca do equilíbrio e possam com seu exemplo inspirar as novas gerações que já nascem conectadas e, por isso, muitas vezes, não sabem o que é viver e se relacionar sem um gadget ou uma tela para “tocar”.

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